Airton S, vocalista da banda Plastique Noir, de Fortaleza/CE conversa com o Palco Local

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Plastique Noir (Foto: Plastique Noir)
Plastique Noir (Foto: Plastique Noir)

Esbanjando simpatia e simplicidade, o vocalista da banda gótica cearense Plastique Noir, Airton S, traz informações sobre toda a trajetória da banda e dá dicas importantíssimas para as bandas que estão se aventurando nessse universo e, naturalmente, almejam o sucesso. Confira na íntegra.

Palco Local: Poderiam nos apresentar quem são os músicos integrantes da banda?

Airton S: Sou o Airton, voz e programações. Danyel é o guitarrista e também compõe e grava os synths. O Deivy toca o baixo.

Palco Local: O Plastique Noir já possui uma história de mais de 10 anos e é uma forte representante da música gótica no Brasil, mesmo estando em um estado distante das capitais Rio-São Paulo, onde, teoricamente, a movimentação é maior. É possível dizer qual o momento em que a banda foi notada e reconhecida dentro do cenário nacional e o que mais contribuiu pra isso?

Airton S: É difícil dizer quando as pessoas começaram a prestar atenção na gente, porque a impressão que tenho é que foi desde o comecinho. Aparecemos e nos lançamos com tudo na internet já em 2006, jogando nossa demo nos canais disponíveis na época, que eram principalmente o Orkut e o MySpace. Daí vieram os primeiros convites pra rodar por aí afora. Houve um segundo “boom” que durou mais ou menos de 2008 a 2012, quando a gente se envolveu mais estreitamente com a rede dos grandes festivais indie graças a articulação que alguns coletivos locais de parceiros nossos tinham com esse pessoal “grande”. As coisas foram, er, não diria desacelerando, mas “assentando” nos anos seguintes até aqui. Diminuiu nossa pilha de ficar tanto tempo em estrada, prospectando shows direto e tal, e passamos a tocar por demanda. Só que a demanda se tornou praticamente constante. Ponho isso na conta do trabalho de formiguinha que fizemos até 2012, de batalhar de lua a lua para mostrar nosso som e convencer as pessoas de toda a cadeia produtiva – desde o fã até os produtores e passando pelas diversas mídias – que nosso trampo era sério e minucioso. Sobre uma suposta maior movimentação no Rio e em SP, põe “teoricamente” nisso. As coisas estão fervilhando em toda parte e em especial no Nordeste, com festivais de considerável porte como o Subterrâneo na Paraíba e bandas como o Noturna Régia de Campina Grande, Electro Bromance de João Pessoa, Ego Eris e Synthetik Form de Recife, Latromodem de Salvador e o Black Knight Frequency também aqui de Fortal, só pra citar algumas e nenhuma deixando qualquer coisa a dever às produções de outros grandes centros.

Palco Local: Quais são as bandas, nacionais e internacionais, que mais influenciam a música da Plastique Noir?

Airton S: Varia conforme a época. No começo, a gente não tinha muita idéia de que identidade queríamos assumir, então apelamos para um espectro que ia de um a outro extremo óbvio: do Cure (mais pop, melódico, post punk) ao Sisters of Mercy (denso, mais sinistro, gothic per se). Em certa altura, também chegamos a pegar carona naquele revival do post punk que o indie gringo reverberou entre 2000 e poucos e 2007, o que ficou evidente na sonoridade do “Affects”, nosso segundo álbum, de 2011. Eu nem sei dizer o que estamos escutando atualmente, cada um de nós vai numa coisa… Pelo que vejo na playlist dos meninos, rola muito Double Echo, She Past Away, Soft Moon… Por também fazer parte do Facada, o Danyel está sempre de ouvido ligado em sons extremos no geral. Atualmente ando pesquisando jazz e grooves latinos dos 50s-70s. Tudo isso contribui de alguma forma, nem que seja em detalhe.

Plastique Noir (Foto: Plastique Noir)
Plastique Noir (Foto: Plastique Noir)

Palco Local: Já contam com três álbuns e vários outros materiais lançados. Quais são os planos para o ano de 2017? Algum novo lançamento previsto?

Airton S: A gente quer fazer nosso primeiro lançamento gratuito desde nosso primeiro ábum, “Dead Pop”, que foi liberado dessa forma pra download naquele ano de 2008 além da prensagem física, por exigência contratual nossa junto ao selo. Este ano soltaremos um EP todo em português. A idéia é que seja tipo um presente para os fãs, em retribuição a todo o apoio que nos deram nesses 10 anos. A galera sempre manifestou curiosidade sobre quando finalmente iríamos cantar na nossa língua e esse interesse só aumentou quando resolvemos fechar a track list do nosso último álbum (“24 Hours Awake”, 2015) com “Vésper”. Por mais que jamais tenha faltado vontade genuína da nossa parte, foi ali onde nos arriscamos pela primeira vez nessa linha. E, sem que a gente esperasse, a música virou um puta hit, obrigatória em show. Daí perdemos o medo que a gente tinha, vamos confessar. É possível que o EP seja prensado depois, mas não é nossa preocupação agora. Já temos umas cinco faixas compostas. Em 2018 deve sair um novo álbum ou, no mínimo, algum relançamento. Talvez o Dead Pop, talvez uma coletânea passando a limpo a carreira… Estamos estudando isso com o Alex Twin (Wave Records).

Palco Local: Vocês já tocaram em importantes festivais, tanto no Brasil quanto no exterior. Como se descreve a sensação de haver tocar suas músicas dividindo palco com nomes mundialmente reconhecidos no universo gótico, como é o caso do Das Ich no Wave Summer Festival?

Airton S: Engraçado isso, porque passamos tanto tempo sonhando em mostrar nosso som ao vivo para os gringos e de repente isso dar uma alavancada, daí eles próprios começaram a vir até a gente. Primeiro foi a abertura para o Frozen Autumn em 2010, em São Paulo. A banda chegou a parar a passagem de som para nos cumprimentar quando íamos passando tímidos para o backstage, atravessando o salão, sem querer atrapalhar… Depois a Arianna nos aplaudiu quando nós próprios passávamos nosso som! E meses depois, ela de novo nos convidou para integrarmos o disco de tributo aos 20 anos da banda… No Wave Summer, o Stefan, do Das Ich, me perseguia por todo buraco porque queria comprar – comprar(!), velho – o 24 Hours Awake da nossa mão. Em seguida, excursionamos por algumas cidades com o Tonchirurgie, também da Alemanha, e ficamos amigos. Em paralelo, a galera do Chile, Peru e México começou a encher nosso saco (no bom sentido) inbox pela nossa página do face. Demorou pra cair a ficha, mas tínhamos virado uma realidade para a cena do exterior. Mas sendo justo aqui, a gente deve muito à Wave (Alex e Marcão), Ferro Velho (que na época eram a Lu Tonoli e o Cyber), ao Escarlatina Obsessiva, em cujo festival WoodGothic também pudemos fazer ótimos contatos, e aos amigos do Blue Butterfly, de Brasília, por terem nos proporcionado essas aproximações com o circuito gringo. Não estamos sabendo ainda como capitalizar tudo isso. É que a gente não consegue parar pra planejar muito essa coisa de logística, tour. O que a gente planeja com muito cuidado, sempre, é o trampo criativo, os lançamentos, os momentos para cada um deles. Na parte ao vivo, as coisas vão chegando e a gente vai no embalo. Acho isso até uma falha meio grave, nossa.

Palco Local: Como vocês avaliam a cena gótica no Brasil? Há espaço para que as bandas possam ter visibilidade?

Airton S: Respondi uma parte lá em cima, falando da rica produção aqui do Nordeste. Em Brasília, tem o Blue Butterfly quebrando tudo. Em SP, o longevo Das Projekt parece ser a banda que mais tem bombado e também aparecem coisas novas muito legais, como o População Zero. Em termos de festivais, São Paulo conta com os da Wave, em versão Summer e Winter, que vai naquela onda dos festivais sazonais europeus, com o mesmo nível de profissionalismo e curadorias muito fodas. Tem também o Alquimia, que quase todo ano leva a gente pra lá e é do caralho. Já em Minas, a gente tem o maior festival under do gênero, o WoodGothic, que é lindíssimo, feito de dois em dois anos na raça e com uma puta qualidade, dando espaço pra bandas de toda parte do país e até de fora. No Rio, apareceu aí a Gangue Morcego, que tá fazendo o maior barulhão. No Sul, a gente tem o Nathaivel produzindo sempre uns lances inusitados bem legais. Manaus também tem uma cena massa, a banda Joy faz bonito por lá. O Morpheus já soltou mais uma coletânea De Profundis, que há anos tem por papel mostrar novos sons no gótico brasileiro. O Cid Vale, que por anos manteve o importante portal Carcasse e o principal fórum gótico do Brasil, já retomou seu espaço literário e mais intelectivo, com entrevistas abordando conteúdos pertinentes a esse mundo simbólico mais escuro. Todo dia alguém cria uma rádio nova, um canal novo no YouTube. Espaço? Em tempos digitais, a galera cria o seu. Não tem essa de esperar por ninguém.

Palco Local: O Palco Local, entre outros objetivos, visa divulgar bandas independentes e auxiliá-las a mostrar seu trabalho. Estando na posição de uma banda que já conquistou um espaço importante, o que diriam para as bandas que estão começando ou que ainda não atingiram um grande público?

Airton S: A essência de uma banda que vai pra frente é 33% competência técnica, os caras precisam mandar minimamente bem nos instrumentos. Também é 33% uma relação massa, não chamem um cuzão pra sua banda por mais que ele seja foda tocando, não vai rolar, vocês só vai ter stress, ganhar uma gastrite nervosa ou até alimentar um câncer, além do quê formações estáveis, que não mudam muito, passam melhor aos olhos do público. E 33% é uma proposta interessante, não necessariamente nova, inédita, mas que não tenha medo de ousar, ao menos um pouco, pra não ficar aquela coisa ctrl+c, ctrl+v do que já tem demais por aí. Aqui também entra um ingrediente especial: GOSTAR do que está tocando, ser aquele som que você ouviria no carro ou na rua, não elejam seu estilo baseado no que está em voga ou porque é mais financeiramente rentável. A vida é pra que quer vivê-la! O 1% que sobra na conta é sorte, o caos do universo. Fora tudo isso, recomendamos NOÇÃO, sempre. O fã é seu amigo, você TEM que ser amigo dele, de responder coisas pela rede social a qualquer hora do dia ou da noite, procure lembrar de seus nomes, nunca trate ninguém mal ou fique se achando porque você pensa que chegou a algum patamar supostamente alto. Por falar em nome, é por ele que você chama o técnico de som, não é “ei, brother da mesa, você aí” e no final do show, agradeça, apertando a mão do cara com um sorriso; no próximo show que ele estiver operando, seu som vai ficar redondinho. Não se envolva em treta de cena, não tome partido, cultive uma diplomacia SUÍÇA com todos os lados da parada. Você vai gastar dinheiro antes dele entrar. Inclusive pode ser que ele não entre nunca, mas existem outros retornos, que são as vivências, as experiências, as amizades, conhecer lugares, essas coisas que dão substância à vida, que enriquecem a narrativa de sua trajetória, que vão te dar histórias pra contar no futuro. JAMAIS subestime o valor dessas coisas! E tem que ter paciência! Bandas que insistem, que sobrevivem à foice do tempo, vão ganhando mais chances de chegar a algum lugar massa à medida que os anos passam. Os Beatles, o Rush, o Police, todas levaram ANOS pra atingir o estrelato. Não entre em concursos de TV. Não pague um centavo para ganhar matéria naquele blog ou revista que se dizem possuidores de um alcance fudido. Não pague pra abrir show. Não fique mais de uma semana sem criar algum tipo de assunto na fan page. Procurem jornais e TVs locais: por incrível que pareça, o pessoal desses veículos muitas vezes simplesmente NÃO TEM ASSUNTO e por isso ficam publicando notícia do Wesley Safadão todo dia, quando na real eles até ficam felizes quando uma banda independente chega querendo espaço, pra mostrar seu novo CD etc, não tenham receio ou vergonha nesse sentido, vão por mim, garanto. O dinheiro que entrar da venda de merchan, separe pra rodar mais produtos do merchan e só reparta com a banda o que sobrar. Se ganharem cachês altos em alguma coisa, tipo edital público, invistam a grana na banda, comprem equipamento, montem estúdio, não gastem com coisas inúteis que você consome agora e não tem mais depois. E ESCUTEM MUITA MÚSICA. Variada. Diversos estilos. Às vezes uma idéia boa pro gothic rock pode vir de um samba antigo triste, sabe-se lá, uma frase foda de prog metal pode vir de um afrobeat, seu próximo hit de emo HC pode estar adormecido numa canção do Buddy Holly.

😎Palco Local: Poderiam deixar os links para que os leitores do Palco Local possam buscar mais informações sobre a Plastique Noir?

Airton S: www.facebook.com/plastique.noirwww.youtube.com/plastiquenoirtv

Nossos discos estão nos streamings, todos. O site oficial www.plastquenoir.net caiu, perdemos mais esse domínio, sorry. Pois é, às vezes não fazemos nossa lição de casa. Obrigado, Palco Local, pelo espaço! Vida longa ao trabalho de vocês!

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