Ava Rocha conversou com o Palco Local. Sem meias palavras e com muita segurança em seu discurso…

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Ava Rocha

Ava Rocha está inserida em um cenário multi artístico brasileiro de valor inestimável e ao lado dela podemos encontrar muitos outros artistas que estão produzindo músicas reconhecidas aqui e lá fora.

Com seu jeito direto e sem meias palavras, mostrando que sabe muito bem do que está falando, Ava conversou exclusivamente com o Palco Local , acompanhe a entrevista.

Palco Local – Não acho muito justo dar rótulo para o trabalho de artistas, especialmente quando se trata de um trabalho como o seu, e de tantos outros, que não está preso e não se furta de experimentar o novo. Mas para iniciarmos essa conversa, gostaria de saber se existe alguma definição com a qual você gosta de ter seu trabalho associado. Qual estilo musical melhor define Ava Rocha?

Ava Rocha – Eu diria que é trans, de transgênero, de transformação, de transcendência, de transa, de tranca, transe, trance. Onde meu corpo e meu espirito se desdobram, pra outros corpos, outros sentidos, que me habitam e que podem ser incorporados, como experiencia de linguagem, e não consigo separar muito arte e corpo por exemplo, e cada trabalho que você faz é como um ebó em si, um trabalho, que pode ser pra algo especifico ou para tratar varias coisas, enfim, eu não me sinto colada a nenhum estilo musical, acho que nenhum estilo pré-existente pode me definir de forma integral, completa, mas sou permeada por causa e por quase de tudo, que já me chegou.

Vou do samba a Björk, de João Gilberto a La Monte Young, acho que a suas aproximações se devem aos múltiplos estados de espirito e de sentimentos que você se encontra ou quer se encontra. Na verdade, mal saberia descrever estilos, na real, a pergunta já coloca uma questão para o conceito de estilo, que é algo que te define, então meu estilo é sem estilo, sem definição, porque me sinto nômade, navegante, num corpo sem órgãos. Sou montadora, cozinheira, alquimista, sonhadora de imagens, e faço da minha arte uma tentativa de transfiguração do meu corpo, das minhas ideias. Então na real, não sei responder essa pergunta, tudo que escrevi foi uma tentativa de encontrar um estilo (rs).

Palco Local – Na versão eletrônica da revista Rolling Stone Brasil o clipe da música “Auto das Bacantes” é definido como “perturbador e surrealista”. Percebendo-se que a música evoca o poder feminino sobre assuntos de interesse geral do mundo e tendo essa definição como parâmetro, você diria que o objetivo do clipe e da música foi atingido?

Ava Rocha – Acho que não foi atingido (rs). É uma musica (composta pelo Negro Leo) e fala justamente do que falamos acima. Desalinhar o corpo. O corpo é físico, é da mulher, e é a linguagem do som e da politica.

Então acho que teria atingido se em primeiro lugar tivesse atingido um maior numero de pessoas e que o clipe que junta a letra, a imagem e o som, criasse um efeito grande, de despertar uma conexão entre estética e politica, onde a geopolítica é o mundo e você mesmo, é macro e micro, onde é o grelo é o som, é a arma, é o gozo, é o poder, dentro de uma ancestralidade e contemporaneidade feminina, que resgata essa memoria, reconhece em si sua singularidade inventiva dentro do meio politico e dentro do meio musical. Então no sentido macro não atingiu, mas eu acho que pode ter sido conectado com varias pessoas.

Mas o clipe foi dirigido pelo meu irmão pedro Paulo rocha, e eu acho genial, como ele traduz e interpreta a musica já em si, confrontando o corpo de mulher que menstrua com uma catedral, fazendo ela masturbar o som, o gozo sonoro, o som é nosso corpo, é nossa maneira de meter o grelo na geopolítica.

Ava Rocha (Foto:Rafael Jacinto)
Ava Rocha (Foto:Rafael Jacinto)

Palco Local – Qual sua visão sobre o cenário atual da música brasileira? Quais artistas nacionais da atualidade fazem parte da sua playlist?

Ava Rocha – Gosto muitíssimo de jonas Sá, Iara Renno, de Lin da Quebrada, Juçara Marçal, Tulipa Ruiz, Negro Leo, Boogarins, Meta Meta, Lukash, Juliana Perdigão, Bella, Teto Preto, Curumin, sinceramente gosto de muitos artistas, e gosto por diferentes razoes, uns porque são mais loucos, outros porque são mais virtuosos, e gosto mais ainda quando é tudo junto, que pode ser inventiva, ou não, combativa ou não, qualquer coisa, mais se tiver dotada de alma, eu gosto, me aproximo.

E acho que o momento atual da musica é muito vibrante, ha toda uma rede de artistas, trocando, se trançando por aí, e esses encontros diversos, por vezes inusitados, tem transformado a cara da musica brasileira, no sentido de dar continuidade a um processo inventivo, de estar em sintonia com a tradição mas inventando a sua própria, e é isso toda tradição nasce da invenção também, embora nem tudo se torne tradição, crie um impacto histórico e acho que o foco não é esse, não deve ser esse, mas vejo naturalmente, emergir hoje no brasil, muitas forças capazes de darem movimento a tudo isso.

Eu torço por isso, incentivo isso, inclusive por dentro, acho importante que toda essa energia produtiva e criativa seja investida também em nos aproximarmos para pensar leis, politicas culturais, de buscar uma organização maior que discuta e resguarde direitos, e que invente mais mecanismos para o que chamamos de independente.

O que é interessante é que muita coisa, de diversos estilos diferentes, de fato são independentes. então não ha um estilo definido para o independente, e o cenário é muito plural, vasto, a musica ta pulsando em todos os cantos do brasil.

Palco Local – Existe hoje no Brasil uma expressão musical muito forte que está sendo rotulada como neo MPB ou neo tropicalismo e que, no entanto, parece que os brasileiros ainda conhecem muito pouco. A que você atribuiria essa aparente falta de interesse do brasileiro pela arte nacional?

Ava Rocha – Continuando o papo de cima, que tem tudo a ver com sua pergunta. A dita neo MPB ou neo tropicalismo ( definições que não gosto ) são tidos muitas vezes como os independentes, quando ha artistas em gravadoras, ou artistas de outros estilos, de sucesso, totalmente independentes.

Já o mercado tem sido cada vez mais heterogêneo, hegemônico. então ha uma overdose de artistas ligados a um estilo sendo abraçado fortemente pelo mercado, e isso vai criando uma estranheza em relação ao que não é aquilo. E no entanto, mas na periferia do mainstream, uma multiplicidade muito grande, que poderiam entrar em contato com esse publico que tem uma ^ aparente falta de interesse~, mas na verdade é um tipo de controle que esse publico sofre.

Palco Local – Enquanto vemos no cenário nacional muitas bandas novas fazendo música e buscando assemelhar-se ao que era feito por bandas de rock nos anos 70, 80 e 90, Iggy Pop toca Negro Leo e Ava Rocha em seu programa de rádio. O que você acha que é necessário que um artista faça para ter esse reconhecimento internacional?

Ava Rocha – Eu não sei, eu não fiz nada que eu não quisesse fazer, sem pensar nisso tudo, se eu pensasse acho que a onda seria bem outra.

Palco Local – O fato de ser filha de pessoas tão importantes e tão reconhecidas na arte nacional, facilita algo em sua carreira ou não tem muita interferência?

Ava Rocha – Eu sou muito colada nos meus pais, eles são guias para mim, são amigos, são interlocutores, eu tenho uma ligação muito grande com eles, com minhas raízes, as famílias deles. minha mãe, Paula Gaitan, nasceu em paris, filha de minha vó Dina Moscovici nascida no Rio de Janeiro, porém filha de imigrantes eslavos, refugiados da primeira-guerra mundial.

Minha bisavó ucraniana, era judia, assim como eu sou. Minha avo dina casou com um colombiano, mistura de espanhol, holandês preto e índio. Meu pai, sertanejo, homem brasileiro, mistura de tudo. enfim é uma luz estar com eles, conviver com eles.

Conheça mais de Ava Rocha acessando:

https://www.facebook.com/ava.rochas/
http://www.avarocha.com/
https://www.youtube.com/user/avamusyk

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